
Quase a completar 27 anos de carreira, os TRABALHADORES do COMÉRCIO, estão de volta aos discos com “Iblusson” – um CD de “roqueenderrol” – foram a primeira banda a escrever à moda do Porto.
P - Tem aparecido e desaparecido com intervalos de 10 anos. Desta vez é para ficarem?
R - Não exactamente com essa frequência, senão as contas não davam certas, mas é verdade que este projecto tem tido vai-e-vens. As razões foram várias e já são conhecidas.
A ideia é ficar e gravar outro álbum já durante o próximo ano e depois os que vierem. De resto já há uns quantos temas para incluir.
Se entretanto não nos der um enfarte ou não partirmos uma mão (o Álvaro, quase conseguiu esta última proeza, há uns meses), estaremos aqui mais outros 27 anos.
P - O novo álbum “Iblussom” foi gravado onde e com que produtor?
R - O "Iblussom" foi gravado, misturado e masterizado entre 7 estúdios em 3 países. Começamos a gravá-lo com o Nuno Meireles, que assumiu a produção do trabalho juntamente com a banda, nos estúdios The Vault, em Matosinhos, a princípios de 2006.
Dessas gravações saíram os temas "Febras de Sábadà noite" e "Cordàbida", que se editaram num single de avanço do que seria o álbum.
No fim do Verão desse ano, depois de uns quantos concertos em Portugal e na Galiza, começamos a "meter prá fita" os novos temas. Para isso fomos passar uns dias a Vigo (eu já lá estava) e tocámos ao vivo 7 dos temas a incluir.
Os estúdios Area Master têm uma acústica excelente e espaço não lhes falta, quando se quer gravar vários músicos ao mesmo tempo e conseguir boa separação.
Tal como os The Vault, são obra de Philip Newell e isso é uma garantia de êxito no trabalho. Aliás, cinco dos sete estúdios que utilizamos foram desenhados por este homem. Voltámos a Vigo passadas umas semanas para mais umas canções e, posteriormente, de volta aos The Vault, gravamos as colaborações, menos a do Rui Veloso, que foi gravada no seu estúdio em Vale de Lobo. Esse momento "romântico" que é "200 Kilos", foi conseguido nos estúdio MB de Canelas, hoje propriedade do Pedro Abrunhosa, pois o piano e o espaço eram os rigorosamente recomendados para o efeito pretendido. Recuperamos, entretanto, três gravações analógicas de 1996, feitas nos estúdios Sonoplástica do Miguel Cerqueira, ainda em fita de 16 pistas, donde saíram, quase integralmente os temas "P.Q.M.D.Q.U." e "Apunhalasta minha main" e as bases do "Loucu".
Já em Janeiro, voltámos a Vigo para gravar totalmente ao vivo, como num concerto sem público, os temas do "Cumpilatoriu". Numa tarde e parte da manhã seguinte, ficou arrumado. As misturas, excepto "Ispáncame",que foi misturado em Blackburn nos Sinister Studios por Joe Fossard, foram todas feitas nos The Vault. Parte da masterização processou-se no Metromastering da Corunha.
P - Foi difícil este contracto com a Farol?
R - Não foi um parto difícil, até porque os encontrámos muito receptivos. Como se já estivessem à nossa espera com a porta aberta... Os Trabalhadores, no fundo, são sempre um "produto" atractivo, pois têm um nicho de mercado onde praticamente não há concorrência.
P - Como pensam promover o disco?
R - Realmente promoção a este disco não tem faltado.
Nisso a Farol demonstra ser mais eficiente do que qualquer das nossas anteriores editoras, e propriamente nem somos artistas contratados mas sim licenciados com a nossa própria etiqueta Tigres de Bengala. Talvez nem sempre a promoção tenha sido a mais efectiva para o tipo de produto que "fabricamos", mas é inegável que estivemos e continuamos a aparecer em todas as televisões e na imensa maioria das rádios.
Algumas das rádios nacionais não se sentiram atraídas pelo álbum, mas eu penso que o "acosso" que fazemos reiteradamente à capital, enquanto símbolo do poder centralizado, ainda incomoda alguma gente.
Eu diria que o termo adequado é "sentem-se enrrabados", ou algo assim.
P - Tem uma digressão marcada, ou esperam pelo verão de 2008?
R - Digressões num país como Portugal, parecem-me ser uma espécie de miragem, na maioria dos casos.
A última de que tenho memória foi em 1982, quando durante quase duas semanas consecutivas percorremos teatros e cinemas ao ar livre de todo o Algarve e da costa Ocidental até à Costa Nova (Aveiro).
Nessa digressão esteve incluído o único concerto dos Trabalhadores no Rock Rendez Vous, donde se extraiu o "Sim, soue um gaijo do Pôrto" que termina o "Cumpilatoriu.
Por isso temos que acreditar que o próximo Verão nos vai trazer uma boa mão cheia de concertos por todo o país e também na Galiza. De momento foram enviados vídeos para a MTV Brasil e para a Televisão Mineirista e só aguardamos que haja alguma resposta.
P - O facto de viverem longe uns dos outros dificulta a vida da banda?
R - Já foi pior, quando a partir de 2000 o João se mudou para Londres. Ensaiar era complicado e, de resto, nos dois temas do primeiro single a sua participação foi via e-mail, como aliás se pode ler no livro que acompanha o "álbum Iblussom".
Por essa época chegar de Vigo a Matosinhos também não era pêra doce. Ou se ia pela A3, com o consequente pagamento da portagem e depois havia que atravessar o transito do Porto, ou se tinha que ir por Caminha numa viagem interminável, ainda que extremamente bela em dias de sol.
Agora, 2,30€ depois de ter entrado na A3, há um desvio para a A27 que nos leva à A28 (gratuitas por agora -- a ver o que faz o novo homem das Estradas de Portugal) e já estamos em Matosinhos.
Por isso vir ao Porto para mim não representa grande esforço e... quem corre por gosto...
P - Como é que foi a reacção do público nos concertos que tem dado?
R - Excelente. Os concertos do Cinema Batalha, Maxime, El Corte Ingles de Gaia, Casino Afifense, Casino da Figueira, La Iguana e Manteca de Vigo, El Nautico de San Vicente, Sala Nasa de Santiago, sei lá, os show-cases das FNAC.
Foi incrível. E o mais gratificante é ver como há gente de 14 ou 15 anos misturada com as outras gerações, que no nosso caso, podem chegar a ser tipos já de 50 ou 60 anos.
P - Quanto discos esperam vender e se isso é importante nos nossos dias?
R - Segundo dados que temos andamos próximos da cifra do disco de ouro, mas vai depender em parte dos leitores do DA. Isto é, que em vez de oferecerem jogos yankees para Play Station ofereçam cultura aos filhos, aos netos, maridos, namoradas, etc.
Assim que 'tá tudo a comprar o Iblussom para oferecer no Natal'.
P - Relançaram o site e apostam nas novas tecnologias. Tem muitas visitas?
R - Desde logo muitas mais do que alguma vez imaginávamos ter.
E o pessoal que vai ao blog escreve-nos e participa, o que é super divertido. As novas tecnologias estão aí e não há volta atrás.
Há que adaptar-se a elas e sacar-lhes o melhor proveito possível. Não sei se se aperceberam os que visitam o site, mas podem baixar vídeos e algumas canções. E é legal porque são NOSSAS.
Visitem sff
www.trabalhadoresdocomercio.org
P - O que acham do problema dos downloads ilegais?
R - A indústria discográfica não soube acompanhar o avanço da tecnologia, isto é, chupou dela o mais que pôde, quando descobriu quão barato era fabricar um CD em relação a um vinil, mas nem por isso baixou os preços.
O que fez foi encher os bolsos o mais possível: os autores continuaram a receber a mesma percentagem sobre o preço de venda às lojas e os artistas continuaram a cobrar o mesmo tipo de royalties ou, em alguns casos, menos.
Ou seja, que o diferencial entre os custos de um vinil e de um CD ficaram nos cofres das grandes multinacionais da música.
Realmente meteram o inimigo em casa, qual cavalo de Troia. Ao contrário do LP em vinil com as suas capas artísticas e altos custos de produção, impraticáveis para os "piratas", o CD, que é uma miserável rodela de fino plástico, foi habituando o consumidor a não dar tanto valor ao "embrulho" e, pior ainda, a todo o tipo de qualidade sónica. Como para cúmulo o CD pode ser copiado sem se ter que montar um laboratório de alta tecnologia, o "negócio" foi servido em bandeja aos "piratas".
Conclusão, se a música em CD tivesse tido, desde um princípio, um preço coincidente com a realidade da fabricação, talvez os consumidores já não encontrassem tanta razão para fazer downloads em mp3 (com a compressão e todos os artefactos que arruínam, mais ou menos, a produção original).
Talvez os consumidores fossem mais exigentes à hora de escolher que som querem ouvir e talvez respeitassem mais a obra intelectual, ao sentirem-se respeitados por quem a comercializa. Já agora, se a música "fosse" cultura e pagasse menos (ou nenhum) IVA, quem ia querer perder tempo no E-Mule?
Mas este tema dava para outra entrevista...
P - Oferecerem uma colectânea com onze temas como bónus a quem compre o CD. É a solução para atraírem os fãs?
R - Francamente foi uma ideia da Farol, que não nos atraiu nada no início. Estávamos tão seguros da qualidade do novo trabalho e do impacto que ia causar que revisitar os velhos temas nos pareceu uma redundância. Afinal funcionou como forma de divulgar o passado da banda e para nós foi um excelente exercício para recriar alguns destes temas e tocá-los agora ao vivo com uma sonoridade muito mais actual do que a que tinham.
Seguramente teríamos tido menos paciência com essas canções, não fora a necessidade de as gravar de novo. Ao mesmo tempo, um dos maiores gozos que sempre tivemos foi o de fazermos versões de nós próprios.
P - Para quando a volta dos Arte & Oficio? Seria viável?
R - Isso é uma pergunta para um ex-elemento dos A&O. Não sei nada desse tema...
Olá, Sou o Serjom dos A&O. Pois esse projecto foi tão especial e tão sério, que há que pensar bem antes de cometer erros graves e "sujar" essa aura de quase exoterismo que abrange os 8 anos de existência da banda.
O A&O foi, provavelmente, a melhor banda de ROCK que houve em Portugal, numa época em que o rock se identificava de forma genuína com movimentos e com filosofias de vida, ou seja antes que o tentassem plastificar nos 80 e O utilizassem para anunciar produtos financeiros ou cuecas para meninos.
Por isso creio que o melhor que pode acontecer ao projecto A&O é ver uma reedição do seu trabalho discográfico em CD.
Mas para isso é fundamental que várias editoras se ponham de acordo e, pior que tudo, que encontrem o espólio da banda no meio da confusão dos seus armazéns.
P - Deixem uma palavra aos leitores do DA e da Hard'n'Heavy e também as próximas datas de concertos?
R - O que me vem imediatamente à cabeça é desafiar os alentejanos para que proponham aos promotores locais que levem o espectáculo dos Trabalhadores do Comércio às várias localidades durante o próximo Verão.
Este ano, como no ano passado, as minhas férias foram passadas em herdades alentejanas dedicadas ao turismo rural.
Eu pessoalmente sou um 'flipado' pelo Alentejo e em Agosto fui pessoalmente oferecer um álbum à responsável da cultura da Câmara de Alcácer do Sal, na expectativa de podermos participar no Festival da Juventude da cidade.
Nós não somos uma banda de grandes festivais. Realmente este ano declinámos algum convite nesse sentido.
Preferimos de longe o contacto mais directo com as gentes. Divertimo-nos todos muito mais: Nós e o público.
E já agora um ABRASSU a todos os leitores do DA e da Hard'n'Heavy.
AM